O Preço Biológico do Excesso de Ar
- Adriana Braga
- 2 de jun.
- 3 min de leitura

Tem períodos que a mente parece ter sido promovida a diretora-geral da existência. Ela não para de agendar reuniões imaginárias, revisitar conversas de três anos atrás, criar cenários para os próximos quinze e, como bônus, tentar resolver todos os problemas da humanidade no meio da madrugada.
Enquanto isso, o coitado do corpo fica sozinho sentado na sala de espera, aguardando ser consultado.
Na linguagem simbólica da astrologia, poderíamos chamar isso de excesso de elemento Ar: pensamento, análise, interpretação, conexões, hipóteses, possibilidades.
O Ar é fascinante. Graças a ele aprendemos, estudamos, criamos teorias, escrevemos livros e compreendemos padrões. O problema não é o Ar existir, mas é quando ele ocupa todo o sistema. E aí então, o corpo começa a apresentar a fatura.
A dificuldade para dormir é uma das primeiras cobranças. O organismo foi projetado para alternar entre os estados de mobilização e repouso. Mas uma mente que continua produzindo relatórios para além do expediente, envia ao sistema nervoso a mensagem:
"Pode deitar, mas não desligue, ainda estamos trabalhando."
O resultado é conhecido por muita gente: fadiga, rigidez e burnout
Mas o mais curioso é que quando tentamos resolver esse estado, geralmente buscamos mais Ar: pensamos sobre o excesso de pensamentos e tentamos resolver com mais pensamentos.
Analisamos a causa da ansiedade, pesquisamos estratégias para interromper a ruminação, lemos um artigo sobre a importância de desacelerar, depois outro... e mais um!
Às vezes, o sistema não precisa de mais compreensão, mas de gravidade e aterramento...
Mas o aterramento acontece normalmente quando oferecemos ao organismo experiências concretas que o lembrem de que ele não vive apenas dentro da cabeça. Tem um outro sistema tão rico quanto o mental: a inteligência sensorial quando nos entregamos a...
Uma caminhada sem objetivo produtivo.
Um banho quente sem celular por perto.
Alongamentos lentos.
Respiração profunda.
Contato com a natureza, pés e mãos na terra.
Refeições feitas com atenção.
Horários minimamente previsíveis com pausas conscientes.
O sistema nervoso não se regula por argumentos, regula-se por experiência.
Existe uma diferença importante entre saber que está cansado e permitir-se descansar. Entre entender a importância do sono e criar condições para dormir. Entre refletir sobre o corpo e habitar o corpo.
O excesso de Ar - e os movimentos que produz - frequentemente nos convence da ilusão de que estamos nos movendo para longe do empacamento.
Mas pensar sobre uma refeição não alimenta. Pensar sobre uma caminhada não movimenta. Pensar sobre descanso não recupera energia ou devolve o movimento expansivo.
Em algum momento, a inteligência precisa descer alguns andares e encontrar os pés, a sensorialidade da terra.
Talvez este seja um dos convites mais importantes da semana: observar onde a mente está tentando resolver, através de mais velocidade, algo que só pode ser resolvido por meio de presença no vazio mental e da completude corporal.
Porque nem todo problema pede uma resposta, alguns só precisam de um corpo respirando mais devagar para que os sinais que vem dos sentidos sejam escutados.
E, convenhamos, se a sua mente está debatendo questões existenciais às três da manhã, talvez ela não seja a melhor pessoa para conduzir a reunião.
Experimenta dar voz ao corpo, que já vem pedindo a palavra há bastante tempo... é um exercício fascinante. Nem tudo o que vem do corpo é agradável, mas ainda assim, se nos demoramos mais um pouquinho nele, será com toda a certeza uma enorme benção!



Muito bom refletir sobre este texto !!