A Compostagem Psíquica da Lua Balsâmica
- Adriana Braga
- há 4 dias
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Tenho me deparado com uma fantasia bastante comum nos processos de transformação: a de que, quando algo deixa de fazer sentido, simplesmente abandonamos e seguimos adiante.
Mas a natureza não funciona bem assim.
Antes de uma nova estação florescer, obrigatoriamente passa pelo período de decomposição. As folhas secam, os galhos são podados, os frutos caem no solo e o que parece fim começa a se transformar em adubo.
Na vida psíquica é parecido. Quando pensamos em encerramentos, costumamos imaginar aquelas decisões dramáticas de cortes abruptos: terminar uma relação, mudar de trabalho, abandonar um hábito ou reformular um projeto. Mas o processo geralmente começa antes, quando percebemos que algo perdeu vitalidade, mesmo que ainda estejamos ligados de alguma forma a ele.
Isso é o que chamo de compostagem psíquica. Antigas identidades, expectativas e formas de funcionar começam a se decompor para devolver energia ao sistema.
O maior desafio é que o sistema nervoso nem sempre reconhece esse processo como fertilidade e muitas vezes ele o interpreta como ameaça.
Diante da mudança, podemos entrar no modo aceleração. Surge a vontade de resolver tudo de uma vez, reorganizar a vida inteira, criar planos e preencher cada espaço vazio com movimento. Mas nem toda urgência é um chamado da alma. Às vezes é só uma resposta para o desconforto diante do desconhecido.
Uma outra resposta do sistema nervoso pode ser a sensação de cansaço e procrastinação, dificuldade de decidir ou uma espécie de congelamento. E nem sempre isso é resistência. Frequentemente é o organismo reduzindo o ritmo enquanto se prepara para uma reorganização importante. É o que eu chamo da hibernação do urso que se recolhe na sua toca.
Curiosamente, tanto a aceleração quanto a paralisação costumam nascer da mesma raiz: a dificuldade de confiar na transformação, muito por que o lado de lá ainda tudo parece incerto... Por isso a compostagem psíquica pede algo que nossa cultura raramente valoriza: o tempo de digestão: é aquele tempo para reconhecer que um ciclo está terminando, para lamentar o que foi importante, tempo para separar apego de vínculo, tempo para permitir que uma identidade se dissolva antes que outra possa nascer.
A natureza não arranca as folhas para acelerar a primavera. Ela respeita o ritmo necessário para preservar a vida. E há algo profundamente taurino nesse processo.
Nem sempre percebemos que um ciclo terminou porque pensamos sobre ele, mas talvez porque o corpo já sente o fim.
Touro nos lembra que a consciência também habita os sentidos. Ela está na pele, no olfato, no paladar, na respiração e nos ritmos mais profundos do organismo. Existe uma inteligência sensorial que frequentemente antecede a compreensão racional.
E é por isso que muitos encerramentos começam como uma sensação. Algo perde o sabor, uma rotina deixa de nutrir, uma conversa já não produz a mesma ressonância.
Ou até mesmo um sonho que antes mobilizava energia deixa de vibrar no coração. E aí percebemos que antes de encontrarmos explicações lógicas, o corpo já registrou a mudança.
Para o arquétipo de Touro, valor não é uma ideia, mas aquilo que aumenta a sensação de presença, ou aquilo que devolve vitalidade.
Talvez o verdadeiro trabalho desta fase balsâmica seja justamente permitir sentir o ciclo e deixar que os sentidos recalibrem o valor das coisas.
O que ainda ressoa em mim, o que ainda me move, o que mé é vital?
A imagem sabiana desta lunação oferece uma bela pista: "Um espanhol serenateando sua amada."
Uma serenata não convence por argumentos. Ela toca, ressoa e desperta algo que os sentidos reconhecem antes que a mente compreenda.
Acho que o fechamento deste ciclo seja exatamente isso: depois de semanas separando o essencial do acessório, o vivo do inerte, o vínculo do apego, resta escutar aquilo que ainda canta dentro de nós. Porque é essa canção — e não os nossos medos, obrigações ou personagens — que irá nos conduzir para a travessia do portal da próxima Lua Nova em Gêmeos.



Que lindeza de reflexão...vai tocando muitas partes em nós. Grata